domingo, fevereiro 17, 2008

blog sem saída


Pensei mais uma vez em acabar com esta Travessia. Não tenho deixado palavras por aqui e meu blog está mais uma vez abandonado. Acho muito triste coisa abandonada. Quando vejo uma casa abandonada com aquele monte de mato crescido em volta me encho de tristeza. Qualquer tranqueira (bonita ou feia) abandonada ao efeito do sol, da chuva, do tempo me parece triste. Pode ser bicicleta, carro velho, objeto fora de moda, roupa, brinquedo, comida no prato, aquela pilha de livros embolorando no quartinho dos fundos, fotografia, história, gente abandonada. E acho que blog abandonado – por que não? - é triste também.

Desde criança eu tenho esse sentimento doído pelas coisas abandonadas. Talvez seja por isso que me agrada a idéia de reformar tudo quanto é coisa. Sempre que vejo uma casa velha abandonada imagino como ela ficaria linda com um pouco de tinta e um belo jardim. Sempre fui adepta das cores para trazer novamente a vida perdida dos objetos esquecidos, pois eu adoro a idéia de poder criar a partir das ruínas, daquilo que ninguém mais quer. Mas o tempo passa e inevitavelmente as minhas coisas ficam abandonadas também, como este blog. Por isso quando percebo que algo meu está há tempos abandonado e sem uso, trato de “passar logo pra frente”, como se diz na minha casa. Assim foi com meus livros infantis e gibis, que felizmente tomaram um bom rumo: eles foram o comecinho da biblioteca do bairro. Mas, enfim, vamos ao ponto: como não gosto dessa idéia de deixar o blog abandonado boiando sem rumo pela internet, preciso decidir o que fazer com ele.

Acho que um pouco de tinta e um belo jardim não bastam para salvar esta Travessia! Estou deveras sem entusiasmo. Afinal, o que é ter um blog? Há sempre uma dose de egocentrismo em jogo. Ao escrever sobre minhas banalidades - incluo aí relatos sobre barata na cozinha e Papai Noel acidentalmente quebrado - me sinto mais um exemplo ordinário do fragmentado sujeito contemporâneo que sente incansavelmente necessidade de falar sobre si. Algumas coisas são sintomáticas desse excesso de exposição. Ao escrever sobre leituras e experiências culturais será que não estamos apenas construindo nossa identidadezinha no universo cult? O objetivo do blogueiro é cativar leitores - porque quem escreve quer ser lido, admitamos - e no fim se pintar como uma pessoa bacana, não é assim? E o que isso significa? Continuo pensando a respeito.

Poderia contar muita coisa aqui, como a minha divertida viagem com os amigos pela Argentina e Uruguai em janeiro ou então a bizarra experiência da minha cirurgia na boca há dez dias, que me deixou com muitos pontos, alguns dias sem falar e depois outros falando com a “língua plesa” igual ao Palocci. Seria até engraçado, mas com um pouco mais de crítica me dou conta de que é besteira publicar esse tipo de “crônica de uma vida anunciada”. Afinal, tudo se encerra na nossa vidinha média, no de sempre. Esse arroz com feijão costumeiro que pode até ser gostoso, mas que ninguém precisa ficar sabendo que é.

Acho que já chega desta discussão meta-blog, não é? Definitivamente este é um anti-exemplo de blog, pois fica abandonado por um longo tempo e depois vem essas discussões pseudo-filosóficas sobre a sua existência. Oras, quiçá não valha a pena continuar caminhando por esta rua sem saída. Nem leitores há. Melhor colocar o ponto final e pronto. PONTO.